Uma das fotografias da reportagem da Pública. Não querendo ser influenciada pelo facto de conhecer o fotografado, não deixo de considerar uma das poucas coisas de valor na reportagem.
Não podia deixara de escrever sobre esta reportagem, publicada hoje na revista Pública, suplemento do jornal Público.
Foi com algum entusiasmo, confesso, que comprei a revista – onde já sabia sair uma reportagem sobre a Festa do Avante! – e li o primeiro parágrafo do jornalista Paulo Moura. Não deixa de ser um parágrafo simpático, elogiando a beleza das duas raparigas entrevistadas e fazendo referencia ao dia de sol abrasador que se fez sentir no último fim-de-semana na Quinta da Atalaia.
Mas depressa deixei de esboçar um sorriso quando percebi as escolhas de citação do jornalista. Ainda assim, fiz um esforço para deixar de lado o meu preconceito com alguns órgãos de comunicação social. Pensei que pudesse estar a fazer um julgamento precepitado do jornalista em causa, e que as citações, apesar de tudo, são ditas pelo entrevistado, e às vezes – raras vezes – não podem ser contextualizadas de forma diferente por parte do entrevistador.
Continuando a ler o artigo, depressa me apercebi que o meu instinto não tinha falhado. O jornalista Paulo Moura foi extremamente tendencioso e demonstrou uma clara mensagem de descrédito no PCP e na JCP. Primeiro, porque o artigo não se debruça assim tanto sobre os jovens que constroem a Festa, como falsamente anuncia. Debruça-se, sim, sobre as questões que, muito provavelmente exigidas por quem publica e coordena a revista e a sua inclinação ideológica, o jornalista tinha preparado. Devo referir também que, efectivamente, o jornalista não fugiu da sua linha orientadora das entrevistas. Tanto, que num momento, enquanto entrevista a candidata número dois pelo círculo de Almada às Eleições Legislativas, chega a perguntar três vezes a mesma coisa, insistindo numa questão que já tinha sido respondida pela entevistada. Nota-se claramente neste momento que o jornalista queria ouvir que, das duas uma, ou o PCP só se começou a preocupar em responsabilizar jovens no seu 17ºCongresso – como deixa escapar logo na pergunta – ou então o aumento na casa dos milhares de jovens aquando desse Congresso não resultou num crescimento. Não posso deixar de repudiar toda a entrevista referida pela forma como o jornalista guiou a conversa e a transcreveu. Chega ainda a referir que, dado o silêncio da entrevistada numa questão acerca da estatização da Comunicação Social, esta nunca pensou acerca disto. Caro colega, mas desde quando é que um jornalista inventa sobre o que os entrevistados sabem ou não sabem, pensam ou não pensam? Ou será que o colega não percebe que um entrevistado tem direito a não resp0nder, sem que por isso seja apresentado como um jumento ou um carneiro?
No geral, a reportagem desagradou-me. No final, onde aparece a entrevista que acima referi, nota-se uma maior sofreguidão por parte do jornalista em mostrar que as suas considerações acerca do Partido Comunista estão certas. Colega, preconceitos todos temos em relação às mais variadas coisas, mas não quando escrevemos um artigo. Não conhece a Festa do Avante! e não gosta de comunistas? Ou se recusava a fazer a reportagem ou a encarava como um desafio. E estudava. Sim, colega, estudava e preparava-se para ela. Mas não fazia o que fez, que foi reunir um sem número de clichés e preconceitos em relação ao PCP e à sua Festa e trabalhá-los em volta de algumas entrevistas e observações.
Gostaria ainda de salientar outro pormenor da reportagem: os veículos da Festa do Avante! não são veículos esquisitos, ou fora do normal, e muito menos são Avantunning. São velhos e gastos e adaptados, sim, tal como até refere, segundo as necessidades de transporte. Mas as modificações do tunning não são bem essas. Aqui está outra questão que deveria estudar antes de entrar em comparações espirituosas. E por falar nisso, não podia deixar de avisar o colega Moura que “República Popular da Atalaia” é uma piada sem gosto, de alguma baixeza, que não serve nem num café, muito menos numa reportagem escrita.
Termino aqui, sem deixar de referir que foi a reportagem mais tendenciosa e ofensiva que já li sobre a Festa do Avante! e sobre o PCP, ou até – atrevo-me a afiançar- sobre todos os temas em geral. Isto porque sei como funcionam os meandros da comunicação, como se manipula sem se manipular, como se mostra um ponto de vista continuando a parecer um mero observador imparcial. E porque conheço também toda a ofensiva contra a Festa do Avante! e contra o Partido Comunista Português, e a forma como é representado na Comunicação Social.
E respondendo à pergunta que fez à entrevistada Paula Santos, respondo de bom grado eu: na minha opinião pessoal, considero sim que deveria haver uma estatização da Comunicação Social, e sua auto-regulação. Para evitar servir o grande capital e os seus interesses, o que deita por terra muito do que é o bom jornalismo e degrada a qualidade da informação. Não deixo de dar uma nota: também os canais públicos caem nestas redes, quando um Governo filtra e censura, à sua mercê, a informação. Mas aqui entramos noutra discussão que deixarei para mais tarde.
Termino por aconselhar o jornalista Paulo Moura a ser mais profissional ou menos influenciado, não sei bem qual destes é o aspecto onde falha. E dizendo também que a Festa do Avante! – à semelhança do que o entrevistado Ângelo Alves refere na entrevista na reportagem – é um espaço onde os ideais comunistas se cumprem, onde o trabalho colectivo é o único trabalho, onde a solidariedade é uma constante, assim como a camaradagem e a alegria. São projectos pensados colectivamente e lavados a cabo. Com madeiras, tubos, tintas, suor e esforço. Com a finalidade de construir uma Festa de três dias que dura uma vida para quem a visita e conhece. Com a finalidade de provar que é possível uma sociedade diferente, assente nos valores comunistas. E sim, os comunistas acreditam numa sociedade sem classes. A opinião emitida pela jovem entrevistada não reflecte a opinião da esmagadora maioria dos que constroem a Festa e o projecto comunista. Só para que não se limite a opinião dos jovens que trabalham na Festa à opinião que o jornalista decidiu citar na reportagem.

Gustave Courbet: A origem do mundo