Off the record

Entradas categorizadas como ‘Insólito’

Português, 20 anos, comunista

2009/08/30 · Deixe um Comentário

Digitalizar_publica
Uma das fotografias da reportagem da Pública. Não querendo ser influenciada pelo facto de conhecer o fotografado, não deixo de considerar uma das poucas coisas de valor na reportagem.

Não podia deixara de escrever sobre esta reportagem, publicada hoje na revista Pública, suplemento do jornal Público.

Foi com algum entusiasmo, confesso, que comprei a revista – onde já sabia sair uma reportagem sobre a Festa do Avante! – e li o primeiro parágrafo do jornalista Paulo Moura. Não deixa de ser um parágrafo simpático, elogiando a beleza das duas raparigas entrevistadas e fazendo referencia ao dia de sol abrasador que se fez sentir no último fim-de-semana na Quinta da Atalaia.

Mas depressa deixei de esboçar um sorriso quando percebi as escolhas de citação do jornalista. Ainda assim, fiz um esforço para deixar de lado o meu preconceito com alguns órgãos de comunicação social. Pensei que pudesse estar a fazer um julgamento precepitado do jornalista em causa, e que as citações, apesar de tudo, são ditas pelo entrevistado, e às vezes – raras vezes – não podem ser contextualizadas de forma diferente por parte do entrevistador.

Continuando a ler o artigo, depressa me apercebi que o meu instinto não tinha falhado. O jornalista Paulo Moura foi extremamente tendencioso e demonstrou uma clara mensagem de descrédito no PCP e na JCP. Primeiro, porque o artigo não se debruça assim tanto sobre os jovens que constroem a Festa, como falsamente anuncia. Debruça-se, sim, sobre as questões que, muito provavelmente exigidas por quem publica e coordena a revista e a sua inclinação ideológica, o jornalista tinha preparado. Devo referir também que, efectivamente, o jornalista não fugiu da sua linha orientadora das entrevistas. Tanto, que num momento, enquanto entrevista a candidata número dois pelo círculo de Almada às Eleições Legislativas, chega a perguntar três vezes a mesma coisa, insistindo numa questão que já tinha sido respondida pela entevistada. Nota-se claramente neste momento que o jornalista queria ouvir que, das duas uma, ou o PCP só se começou a preocupar em responsabilizar jovens no seu 17ºCongresso – como deixa escapar logo na pergunta – ou então o aumento na casa dos milhares de jovens aquando desse Congresso não resultou num crescimento. Não posso deixar de repudiar toda a entrevista referida pela forma como o jornalista guiou a conversa e a transcreveu. Chega ainda a referir que, dado o silêncio da entrevistada numa questão acerca da estatização da Comunicação Social, esta nunca pensou acerca disto. Caro colega, mas desde quando é que um jornalista inventa sobre o que os entrevistados sabem ou não sabem, pensam ou não pensam? Ou será que o colega não percebe que um entrevistado tem direito a não resp0nder, sem que por isso seja apresentado como um jumento ou um carneiro?

No geral, a reportagem desagradou-me. No final, onde aparece a entrevista que acima referi, nota-se uma maior sofreguidão por parte do jornalista em mostrar que as suas considerações acerca do Partido Comunista estão certas. Colega, preconceitos todos temos em relação às mais variadas coisas, mas não quando escrevemos um artigo. Não conhece a Festa do Avante! e não gosta de comunistas? Ou se recusava a fazer a reportagem ou a encarava como um desafio. E estudava. Sim, colega, estudava e preparava-se para ela. Mas não fazia o que fez, que foi reunir um sem número de clichés e preconceitos em relação ao PCP e à sua Festa e trabalhá-los em volta de algumas entrevistas e observações.

Gostaria ainda de salientar outro pormenor da reportagem: os veículos da Festa do Avante! não são veículos esquisitos, ou fora do normal, e muito menos são Avantunning. São velhos e gastos e adaptados, sim, tal como até refere, segundo as necessidades de transporte. Mas as modificações do tunning não são bem essas. Aqui está outra questão que deveria estudar antes de entrar em comparações espirituosas. E por falar nisso, não podia deixar de avisar o colega Moura que “República Popular da Atalaia” é uma piada sem gosto, de alguma baixeza, que não serve nem num café, muito menos numa reportagem escrita.

Termino aqui, sem deixar de referir que foi a reportagem mais tendenciosa e ofensiva que já li sobre a Festa do Avante! e sobre o PCP, ou até – atrevo-me a afiançar- sobre todos os temas em geral. Isto porque sei como funcionam os meandros da comunicação, como se manipula sem se manipular, como se mostra um ponto de vista continuando a parecer um mero observador imparcial. E porque conheço também toda a ofensiva contra a Festa do Avante! e contra o Partido Comunista Português, e a forma como é representado na Comunicação Social.

E respondendo à pergunta que fez à entrevistada Paula Santos, respondo de bom grado eu: na minha opinião pessoal, considero sim que deveria haver uma estatização da Comunicação Social, e sua auto-regulação. Para evitar servir o grande capital e os seus interesses, o que deita por terra muito do que é o bom jornalismo e degrada a qualidade da informação. Não deixo de dar uma nota: também os canais públicos caem nestas redes, quando um Governo filtra e censura, à sua mercê, a informação. Mas aqui entramos noutra discussão que deixarei para mais tarde.

Termino por aconselhar o jornalista Paulo Moura a ser mais profissional ou menos influenciado, não sei bem qual destes é o aspecto onde falha. E dizendo também que a Festa do Avante! – à semelhança do que o entrevistado Ângelo Alves refere na entrevista na reportagem – é um espaço onde os ideais comunistas se cumprem, onde o trabalho colectivo é o único trabalho, onde a solidariedade é uma constante, assim como a camaradagem e a alegria. São projectos pensados colectivamente e lavados a cabo. Com madeiras, tubos, tintas, suor e esforço. Com a finalidade de construir uma Festa de três dias que dura uma vida para quem a visita e conhece. Com a finalidade de provar que é possível uma sociedade diferente, assente nos valores comunistas. E sim, os comunistas acreditam numa sociedade sem classes. A opinião emitida pela jovem entrevistada não reflecte a opinião da esmagadora maioria dos que constroem a Festa e o projecto comunista. Só para que não se limite a opinião dos jovens que trabalham na Festa à opinião que o jornalista decidiu citar na reportagem.

Categorias: Insólito
Tagged: , , , , ,

Pede-se, apenas, respeito!

2009/04/15 · Deixe um Comentário

De volta das trevas, não podia deixar de partilhar com os meus infinitos leitores uma experiência que todos já tivemos. De um lado ou do outro da barricada. Há gente mais pacata, que não gosta deste tipo de demonstrações públicas, verdade. Mas quem conseguir resistir às gargalhadas que puxam a lágrima e o non-stop, que fique macambúzio primeiro.

Admito que seja chato para quem trabalha num restaurante aturar este tipo de pessoas – como eu e as minhas caras companheiras B., A. e F. – num momento de histeria absoluta. Mas convenhamos que foram situações engraçadas que nos levaram a perder as estribeiras.

É difícil à B. ser simpática e paciente, e portanto ninguém lhe poderia pedir que não resmungasse pela demora do serviço nem pelo exagero de comida servida numa dose. Como o mundo sabe, é muito complicado para mim falar num tom aceitável. Mas desta vez, quem abriu o precedente foi a F., que deu o mote para a gargalhada geral, com um ruído que convidava a rir sem parar. E foi o que aconteceu.

Comemos e rimos que nos fartámos, e ainda levámos as sobras. Não é todos os dias que o mulherio se junta para jantar sem o homem (F., é para ti) e que faz furor numa casa tradicional bracarense. Companheiros, podemos riscar o sítio das portas vermelhas da nossa lista de possibilidades durante algum tempo.

Categorias: Insólito

2009/02/24 · 1 Comentário

origem-do-mundo-copiaGustave Courbet: A origem do mundo

Que o pintor oitocentista Gustave Courbet, percursor do realismo na pintura, percebeu que o seu quadro A origem do Mundo (imagem acima) causaria alguma discussão e controvérsia, todos percebemos. Como todos os movimentos, o rompimento com as escolas anteriores consistiam em momentos tortuosos para a arte, e o realismo, para além de não ser excepção, causou estranheza ainda mais aguda por se aproximar tanto da fotografia. No caso do quadro referido, em exposição no Museu de Orsay em Paris, a polémica é gerada por retratar as pernas e o sexo da mulher, podendo ainda ver-se um mamilo, de forma tão real. Muitas terão sido as situações em que este quadro causou problemas. Mas, como acontece com todas as obras, quer estas retratem ou não uma vagina (ainda que esta seja, efectivamente, a origem do mundo, menos para aqueles que nascem de cesariana ou para os que chegam de cegonha) acabam por ser entendidas e apreciadas. Pois o que Courbet não imaginava era que uma imagem deste pintura viesse a causar um problema no distrito de Braga num domingo de carnaval à tarde.

O real problema começou quando decidiram colocar esta imagem na capa de um livro intitulado “Pornocracia”. Sim, porque este problema estendeu-se no útlimo domingo à tarde a um cidadão bracarense que se dizia não ser padre nem púdico. O cidadão, que não era padre nem era púdico, ficou, então, chocado (este será o termo correcto) com o facto de o dito livro estar exposto na feira de saldos e fins de edição, ali mesmo, para toda a gente ver. Que havia por ali crianças, que podiam ver. Que não é permitido, que deveria ser retirado. Perante tais comentários, a minha reacção foi explicar ao cidadão que não era padre nem púdico que não iria retirar o livro dali, e vendo que o senhor estava a gostar particularmente de ouvir a sua própria indignação e  a ia exagerando à medida que ia percebendo que esta não me incomodava, e perante a sua ameaça de chamar a polícia, resolvi deixá-lo fazer o que entendesse, e inclusive lho disse; porque não gosto que ninguém se sinta impedido de fazer o que deseja.

A verdade é que este episódio, já um pouco insólito em si – isto para mim, que detesto moralismos e não simpatizo com ignorantes que acham que duas pernas são pornografia- não bastou ao domingo à tarde de carnaval. A PSP, sensibilizada com a queixa do cidadão que não era nem padre nem púdico, e pronta a resolver o problema, entrou na tenda da feira e dirigiu-se para os livros. Como se não bastasse, agarraram-nos como se lhes pertencessem e gritaram bem alto, para quem quisesse ouvir, que eram a autoridade e que iam levar os livros sim senhor. Sem ordem nem decisão de ninguém para além deles, pois claro, que são a autoridade. E a autoridade faz o que bem entende, e se um cidadão se queixou de um livro, então vai-se buscar o livro. Não vale a pena ler o título, porque o cidadão já os tinha informado. O título era: pornografia e o livro era pornográfico. Sim senhor, somos a autoridade e se precisa assim tanto vamos escrever aqui uma nota a explicar o sucedido para levar para a esquadra juntamente com os cinco exemplares do livro do diabo. Ora a fotocópia da nota veio e o auto formal, a computador, no sistema, porque assim é mais fácil porque basta carregar lá no botão e aparece logo tudo, também. Este, já com o real título do livro. Afinal não era “pornografia”, mas era “pornocracia”. Ora, é quase igual.

Afinal, o livro não tem nenhum tipo de conteúdo impróprio, nem para crianças, nem para padres, nem para púdicos. Quem não quer ler algo erótico, não compra o livro, como nem seria preciso explicar. Quem não compra nem quer comprar e está simplesmente sujeito a ver as capas dos tantos livros espalhados pelas mesas da feira, saía de lá igual ao que entrou por ver aquele. Mas isto digo eu, que efectivamente não sou padre nem púdica.

De qualquer forma, depois de uma tarde insólita, doía-me à noite o queixo de tão boquiaberta que fiquei com o sucedido. Que a autoridade abusa de si mesma, já eu sabia. Que há pessoas ignorantes, já estava eu farta de saber. Histórias de antes de 74,  já eu li e ouvi muitas. Mas confesso que não esperava, num domingo de carnaval à tarde em 2009, assistir a um espectáculo destes. Não contava presenciar num domingo à tarde um acto puro de censura e de ignorância enjoativa. Nem tão pouco de ter vontade de apertar o pescoço à autoridade, que muito grita do alto do seu uniforme, e nada ouve. Que tudo decide, porque afinal de contas é a autoridade, e faz o que lhe apetece.

Estou profundamente irritada com este episódio, mas apesar de tudo ainda não percebi se hei-de rir primeiro, por ver tanta estupidez corrida e chorar a seguir, por viver nestes dias, ou chorar primeiro e rir depois.

Categorias: Insólito
Tagged: , , , , , , , , , ,

Autoridades (in)competentes

2009/01/14 · Deixe um Comentário

Sou uma pessoa que gosta de partilhar experiências, e por isso resolvi colocar aqui um texto que escrevi há longos meses atrás, num blogue de uma amiga. Não vou modificá-lo porque não tenho paciência, portanto façam o esforço de se reportar ao ano passado, por volta do mês de Setembro. Obrigada.

Gostaria muito que este blog fosse o mais visitado de sempre e, que entre os seus visitantes, se incluísse a loja do cidadão. Passo a explicar: eu, cidadã exemplar, sem qualquer tipo de associação a actos de vandalismo ou organizações terroristas, mesmo sem usar turbante e sem viajar com drogas, fui retida num dos aeroportos de Londres. Tudo porque, pelos vistos, o meu BI é, sem mais nem menos, falsificado. Ainda que tenha sido emitido pelas autoridades competentes, este pequeno papel com uma das minhas melhores fotografias não cumpre algumas das regras de segurança. Um dos pormenores engraçados do meu bilhetezinho é a barra em amarelo torrado na parte direita do dito cujo. Os enfeites entrelaçados da coisa ganham na parte transparente um duplicar e até um triplicar de linhas. Fui aconselhada a renovar o BI e a transportar também o passaporte – de repente oiço a sábia voz do meu progenitor a repetir pela terceira vez que é melhor guardar os documentos em sítios diferentes para o caso de um desaparecer –  que, para cúmulo, está caducado e repousa neste preciso momento na secretária do meu quarto em casa dos meus pais. E quando achava que nada podia correr pior, – maldita lei de Murphy – mesmo depois de a minha mala aparecer toda contente encharcada de algo que cheirava a vinho tinto, descubro que para tratar do raio do bilhete de identidade na embaixada portuguesa terei que esperar com a antecedência de três horas na fila à porta antes do horário de abertura (9h30 da manhã) porque as autoridades competentes só recebem 20 pessoas por dia.

Tudo para dizer que estou profundamente indignada com tudo isto. Quanto ao engraçadinho que fez o meu BI, hei-de apanhar-te um dia, seu bovino!

Categorias: Insólito
Tagged: , , , ,

I hate Processo de Bolonha

2009/01/14 · Deixe um Comentário

Mobilidade é um termo muito bonito. Tal como modernidade, flexibilidade, pró-activo, etc. Gosto de imaginar um departamento especial do Governo, com um gabinete todo XPTO, 30 funcionários ou mais, dicionários na mão e lâmpadas de cores garridas espalhadas pela sala, ligadas alternadamente quando se encontrassem termos que ficassem bem nas propostas do Governo. Ora portanto, Código do Trabalho: flexibilidade! Governo PS: pró-activo! Processo de Bolonha: mobilidade! Ora cá está! E como todos sabemos, aliar estética e função nem sempre é assim tão simples.

Portanto, milhares e milhares de pessoas como eu, mais ou menos bonitas, mais ou menos fantásticas, deparam-se hoje com um Ensino Superior surreal! Sim, surreal. É o único termo que consigo, hoje, arranjar para categorizar o que se pratica nas Universidades. Digamos que poderá passar por tudo menos ensino. Não quero aqui ofender ninguém, vai-se aprendendo, sim, qualquer coisa. Mas decidam-se, por favor! Ou ter cidadãos com graus elevados de educação é importante para a sociedade, ou isto depende das fases e, posto isto, há alturas em que o que dava mesmo mesmo jeito à sociedade era muita mão de obra barata; ou a avaliação é necessária e se dá a possibilidade de a fazer em dois momentos (exame ou recurso), ou então esta é contínua, o que significa, pelos vistos, fazê-la obrigatoriamente em 2 ou mais momentos durante o semestre; ou o Processo de Bolonha significa tudo o que de bom há no ensino estrangeiro, ou então o Processo de Bolonha significa ba-le-las, já que são poucos os estudantes que se viram benificiados com ele. E faço o reparo: caros colegas, se foi o vosso caso, foi precisamente por mero acaso. De resto, anda toda a gente tonta com os trabalhos, com os trabalhos de grupo, com os exames, com as faltas, com as disciplinas por fazer e com as equivalências. Isto para acrescentar às propinas, às bolsas, ao transporte e à residência.

Depois do Processo de Bolonha, vem o novo RJIES. O que foi apregoado desde o início, é que os estudantes deviam ser mais autónomos. E, assim, mais maduros, prontos a usufruir do que a Universidade tem de melhor a oferecer. Isto, traduzido por miúdos, significa autonomia em escolher os grupos de trabalho e os temas, autonomia em arranjar atestados médicos para justificar a 6ª falta que se teve que dar, já que depois de 5 se está reprovado à disciplina. Ou seja, autonomia = dar o litro e é se queres. Quanto ao RJIES, entra a autonomia de novo: a da Universidade. Autonomia em votar as instituições/empresas que farão parte do Conselho Geral e autonomia em ver o Ensino Gratuito cada vez mais longe e as propinas a atingir valores cada vez mais engraçados. Se calhar, daqui a uns anos, podemos comprar acções de empresas em vez de pagar propinas.

E viva o Ensino Superior!

Categorias: Insólito
Tagged: , , , , , ,