Outono

Acordei com chuva nos olhos e pensei que o tecto desabara em cima do colchão azul. Então reparei que eram mais quentes as gotas e que brotavam de mim para fora, assim, de dentro para fora, e que a chuva vinha ao contrário molhar o que estava do lado de lá da janela.

Não percebi porque tinha o talento de chorar ao acordar e quis que a chuva lá fora parasse para poder fingir que sabia controlar as dores dos olhos. Levantei-me e pensei que não era esta a minha sina e que os ajustes que tinha a fazer com o futuro iam ser para breve. Pensei no longo discurso que lhe ia fazer, para lhe explicar direitinho que o que tinha pedido não eram lágrimas nos olhos em dias de chuva, mas sim manhãs de sol para o resto da vida.

Cheguei ali assim e gritei que não queria que sorrissem mais. E eles obedeceram, porque ali assim ninguém gosta de me ver aborrecida. Se me tivessem dito que eu estava errada, que precisava era de sorrir com eles, podia bem ter acabado com a humanidade naquele instante lá.

Mas deixei-me estar carrancuda, à espera que o mundo mudasse alguma coisa em mim, me lavasse por dentro e me deixasse pendurada ao sol, a cheirar a sabão rosa, num prado verde como nos anúncios. E as molas seriam coloridas como as minhas entranhas lavadas. Mas ninguém pega em mim, então eu faço uma careta a toda a gente para que percebam que sou má e não quero brincar a nada hoje.

Vou chegar acolá e gritar a toda a gente para parar de viver durante uns minutos para poderem arranjar-me uma vida nova.

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