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2009/02/24 · 1 Comentário

origem-do-mundo-copiaGustave Courbet: A origem do mundo

Que o pintor oitocentista Gustave Courbet, percursor do realismo na pintura, percebeu que o seu quadro A origem do Mundo (imagem acima) causaria alguma discussão e controvérsia, todos percebemos. Como todos os movimentos, o rompimento com as escolas anteriores consistiam em momentos tortuosos para a arte, e o realismo, para além de não ser excepção, causou estranheza ainda mais aguda por se aproximar tanto da fotografia. No caso do quadro referido, em exposição no Museu de Orsay em Paris, a polémica é gerada por retratar as pernas e o sexo da mulher, podendo ainda ver-se um mamilo, de forma tão real. Muitas terão sido as situações em que este quadro causou problemas. Mas, como acontece com todas as obras, quer estas retratem ou não uma vagina (ainda que esta seja, efectivamente, a origem do mundo, menos para aqueles que nascem de cesariana ou para os que chegam de cegonha) acabam por ser entendidas e apreciadas. Pois o que Courbet não imaginava era que uma imagem deste pintura viesse a causar um problema no distrito de Braga num domingo de carnaval à tarde.

O real problema começou quando decidiram colocar esta imagem na capa de um livro intitulado “Pornocracia”. Sim, porque este problema estendeu-se no útlimo domingo à tarde a um cidadão bracarense que se dizia não ser padre nem púdico. O cidadão, que não era padre nem era púdico, ficou, então, chocado (este será o termo correcto) com o facto de o dito livro estar exposto na feira de saldos e fins de edição, ali mesmo, para toda a gente ver. Que havia por ali crianças, que podiam ver. Que não é permitido, que deveria ser retirado. Perante tais comentários, a minha reacção foi explicar ao cidadão que não era padre nem púdico que não iria retirar o livro dali, e vendo que o senhor estava a gostar particularmente de ouvir a sua própria indignação e  a ia exagerando à medida que ia percebendo que esta não me incomodava, e perante a sua ameaça de chamar a polícia, resolvi deixá-lo fazer o que entendesse, e inclusive lho disse; porque não gosto que ninguém se sinta impedido de fazer o que deseja.

A verdade é que este episódio, já um pouco insólito em si – isto para mim, que detesto moralismos e não simpatizo com ignorantes que acham que duas pernas são pornografia- não bastou ao domingo à tarde de carnaval. A PSP, sensibilizada com a queixa do cidadão que não era nem padre nem púdico, e pronta a resolver o problema, entrou na tenda da feira e dirigiu-se para os livros. Como se não bastasse, agarraram-nos como se lhes pertencessem e gritaram bem alto, para quem quisesse ouvir, que eram a autoridade e que iam levar os livros sim senhor. Sem ordem nem decisão de ninguém para além deles, pois claro, que são a autoridade. E a autoridade faz o que bem entende, e se um cidadão se queixou de um livro, então vai-se buscar o livro. Não vale a pena ler o título, porque o cidadão já os tinha informado. O título era: pornografia e o livro era pornográfico. Sim senhor, somos a autoridade e se precisa assim tanto vamos escrever aqui uma nota a explicar o sucedido para levar para a esquadra juntamente com os cinco exemplares do livro do diabo. Ora a fotocópia da nota veio e o auto formal, a computador, no sistema, porque assim é mais fácil porque basta carregar lá no botão e aparece logo tudo, também. Este, já com o real título do livro. Afinal não era “pornografia”, mas era “pornocracia”. Ora, é quase igual.

Afinal, o livro não tem nenhum tipo de conteúdo impróprio, nem para crianças, nem para padres, nem para púdicos. Quem não quer ler algo erótico, não compra o livro, como nem seria preciso explicar. Quem não compra nem quer comprar e está simplesmente sujeito a ver as capas dos tantos livros espalhados pelas mesas da feira, saía de lá igual ao que entrou por ver aquele. Mas isto digo eu, que efectivamente não sou padre nem púdica.

De qualquer forma, depois de uma tarde insólita, doía-me à noite o queixo de tão boquiaberta que fiquei com o sucedido. Que a autoridade abusa de si mesma, já eu sabia. Que há pessoas ignorantes, já estava eu farta de saber. Histórias de antes de 74,  já eu li e ouvi muitas. Mas confesso que não esperava, num domingo de carnaval à tarde em 2009, assistir a um espectáculo destes. Não contava presenciar num domingo à tarde um acto puro de censura e de ignorância enjoativa. Nem tão pouco de ter vontade de apertar o pescoço à autoridade, que muito grita do alto do seu uniforme, e nada ouve. Que tudo decide, porque afinal de contas é a autoridade, e faz o que lhe apetece.

Estou profundamente irritada com este episódio, mas apesar de tudo ainda não percebi se hei-de rir primeiro, por ver tanta estupidez corrida e chorar a seguir, por viver nestes dias, ou chorar primeiro e rir depois.

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Querido, mudei o quarto

2009/02/09 · 6 Comentários

Senti-me mesmo muito muito inteligente e forte quando consegui montar a estante que trouxe do IKEA.Agora falta o varão que é mais comprido que todos os carros disponíveis para ir a Matosinhos. Não é um dilema, este nosso triste e sombrio percurso?

(Isto é a resposta para o idiota chapado do meu caro amigo P.Monteiro. Sim, reafirmo seja perante quem for que prefiro as minhas baboseiras e as minhas analogias um tanto ou quanto parvas ao correr de palavreado que tu escreves e que ninguém, excepto eu e poucos mais, percebe. Porque meu caro amigo P.Monteiro, os teus textos dão dores de cabeça! E os meus não. Toma toma toma, nha nha e etc.)

Categorias: Nonsense