
Toulouse Lautrec – La Toilette
Estava já perto da hora de te levar ao aeroporto. Anoiteceu de repente no teu corpo. Já não havia zonas de luz na tua pele, tudo ficou escuro. Procurei-te com os dedos, com os lábios: encontrava-te sempre. As tuas costas eram para mim um mapa fácil de perceber. Podia passar o dia – e passei – a sentir as tuas costas nas minhas mãos. Fomos marido e mulher, pai e mãe, menino e menina. Éramos sempre tudo quando as tuas costas estavam nas minhas mãos. Os teus lábios nos meus braços, as carícias que te fazia no rosto. O teu nariz de tamanho perfeito e forma engraçada, que tornava o teu perfil plácido e quase mudo. As minhas mãos na tua pele e os teus lábios na minha faziam com que as horas passassem sem que delas nos apercebessemos. Faltava pouco para sairmos de casa, casacos no corpo, cachecóis e a tua mala, no silência da rua. Tão estranho que era estarmos vestidos diante um do outro. Conseguia sempre ver o teu corpo, os teus ombros eram sempre para mim o começo das tuas costas. Quiseste parar um segundo, deitar-te sobre mim, encaixado – como sempre ficavas – para guardar o momento. Senti que te perdia ali mesmo, encostado a mim, entre as minhas pernas e os meus braços. Quis chorar e não consegui. Sabia que era o fim e que ia lembrar o peso do teu corpo para sempre. Tinha a certeza que tudo o que vivêssemos depois – e vivemos – ia ser em contagem decrescente – e foi. Ali, sabia que era ali que o meu corpo tinha que se desabituar do teu. Ficaste dois minutos colado a mim. Dois minutos que serão sempre duas eternidades. Lembraste esta noite muito mais tarde, por causa do indiano que me pediu ajuda em frente à estação de metro. Lembro esta noite todos os dias, porque foi o nosso desmame. Ver-te partir nessa noite, depois do troco do café que deixaste comigo – uma moeda 0,20£ e uma de 0,10£ - e da última fotografia que me tiraste, foi como largar o coração. Hoje, procuro-o em todas as memórias, procuro-o nessa noite, e encontro-o encostado ao teu peito, tu entre as minhas pernas e os meus braços. Tu e eu fomos, na melhor das hipóteses, esses dois minutos. Tu és, na pior das hipóteses, essas duas eternidades.
