Off the record

I

2009/01/11 · Deixe um Comentário

Toulouse Lautrec - La toilette

Toulouse Lautrec – La Toilette

Estava já perto da hora de te levar ao aeroporto. Anoiteceu de repente no teu corpo. Já não havia zonas de luz na tua pele, tudo ficou escuro. Procurei-te com os dedos, com os lábios: encontrava-te sempre. As tuas costas eram para mim um mapa fácil de perceber. Podia passar o dia – e passei – a sentir as tuas costas nas minhas mãos. Fomos marido e mulher, pai e mãe, menino e menina. Éramos sempre tudo quando as tuas costas estavam nas minhas mãos. Os teus lábios nos meus braços, as carícias que te fazia no rosto. O teu nariz de tamanho perfeito e forma engraçada, que tornava o teu perfil plácido e quase mudo. As minhas mãos na tua pele e os teus lábios na minha faziam com que as horas passassem sem que delas nos apercebessemos. Faltava pouco para sairmos de casa, casacos no corpo, cachecóis e a tua mala, no silência da rua. Tão estranho que era estarmos vestidos diante um do outro. Conseguia sempre ver o teu corpo, os teus ombros eram sempre para mim o começo das tuas costas. Quiseste parar um segundo, deitar-te sobre mim, encaixado – como sempre ficavas – para guardar o momento. Senti que te perdia ali mesmo, encostado a mim, entre as minhas pernas e os meus braços. Quis chorar e não consegui. Sabia que era o fim e que ia lembrar o peso do teu corpo para sempre. Tinha a certeza que tudo o que vivêssemos depois – e vivemos – ia ser em contagem decrescente – e foi. Ali, sabia que era ali que o meu corpo tinha que se desabituar do teu. Ficaste dois minutos colado a mim. Dois minutos que serão sempre duas eternidades. Lembraste esta noite muito mais tarde, por causa do indiano que me pediu ajuda em frente à estação de metro. Lembro esta noite todos os dias, porque foi o nosso desmame. Ver-te partir nessa noite, depois do troco do café que deixaste comigo – uma moeda 0,20£ e uma de 0,10£ - e da última fotografia que me tiraste, foi como largar o coração. Hoje, procuro-o em todas as memórias, procuro-o nessa noite, e encontro-o encostado ao teu peito, tu entre as minhas pernas e os meus braços. Tu e eu fomos, na melhor das hipóteses, esses dois minutos. Tu és, na pior das hipóteses, essas duas eternidades.

Categorias: Memórias

A casa da Trofa

2009/01/11 · Deixe um Comentário

Foi na última sexta-feira que, depois de uma manhã um pouco surreal,  o dia se transformou num memorável momento.

Com exame escrito de Técnicas de Expressão marcado para as 9:00, às 8:30 estava no segundo cigarro em frente ao CP2 quando começa a nevar. Ainda que hoje, ao pensar em neve, me lembre de toda a histeria na Universidade, depois na rádio e depois em casa, quando começou a nevar senti-o como algo deveras inédito, e estupidamente pensei que só eu, de cigarro em punho, olhos semicerrados e as mãos congeladas, podia testemunhar flocos de neve em Braga.

Depois do exame de 4 horas, e depois de parar de nevar, o almoço com a B. decidiu o meu destino dessa mesma tarde: a Trofa.

No entanto, não estava minimamente preparada, mesmo depois da neve, mesmo depois do exame e mesmo depois de ficar uma hora à espera que a B. acabasse a entrevista de trabalho que nos levou à Trofa em primeiro lugar, para ter conhecimento do que agora percebo ser a coisa mais fantástica que me aconteceu nestes 20 anos de existência.

Na, que agora sei quase interminável, recta da Trofa (perdoem-me, trofenses, mas não faço ideia do nome nem coisa parecida), onde, segundo a B., existem vários restaurantes onde se pode comer leitão, existe uma casa onde vale a pena parar. Não só porque é grande e tem um jardim considerável, nem só porque se consegue perceber por entre as grades que a casa continua por uma área muito mais extensa que a berma da estrada, com um corredor de colunas a la templo romano.

Mas as colunas não são o melhor da casa. Muito menos o que salta à vista. Esta mansão trofense tem uma particularidade: todo o jardim é decorado. Quando digo todo, quero mesmo dizer TODO. Não há um pedaço de espaço exterior que não tenha uma escultura, uma estatueta, uma lápide, plantas de plástico ou mesmo bonecos de plásitico! E se já se fica espantado com esta descrição, mais espantado se fica ao vislumbrar todo o espectáculo de criaturas com que aquele jardim conta. Um pequeno lado com moedas, um tubarão, uma gaivota e um pelicano. Outro, mais atrás, com uma mini ponte de madeira e uns quantos animais. Uma espécie de escultura alta com um bode em cima e uma ovelha a tentar “trepar” num ângulo bastante perigoso. Dinossauros de plástico. Um macaco com uma cana de pescar com uma banana na ponta. A “casa” do Tarzan, com uns bons 3 metros de altura. Burros em tamanho real e um boi. Uma pequena pirâmide do egipto e um camelo com um macaco às costas. Outro macaco pendurado num fio. Mais macacos. Dinossauros de plástico a trepar pela parede prestes a “entrar” por uma das janelas. A entrada da casa, impossível de descrever. Variadas lápides com textos de Eduardo Reis. A maior parte sobre a evolução do homem. Daí a quantidade dos macacos? A fachada da casa virada para a estrada com um mural em azulejo. Villa qualquer coisa.

Foi-me difícil classificar o que vi. Teria que inventar uma nova categoria para aquela casa. Há o belo, o feio e a casa. O aceitável, o inaceitável e a casa. O bom gosto, o mau gosto, o péssimo gosto e aquela casa. A reacção, a sem-reacção e o que se faz quando se olha para aquela casa.

Gostaria de conseguir explicar exactamente onde fica, mas não sei. Quem conhecer a Trofa, deve saber com certeza do que falo. Quem não conhece, que se aventure na tal “recta” e vá espreitando as casas à esquerda. A minha vida mudou e a vossa também vai mudar! Preparem as expectativas, porque aquele jardim supera mesmo as mais imaginativas!

Prometo que um dia publico fotografias do sítio, quando conseguir tirar fotografias panorâmicas àquele jardim.

Categorias: Insólito
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