Pina

Pina Bausch

 

A magnificência das coreografias de Bausch, com o mecanicismo dos movimentos, as suas repetições frenéticas e incansáveis, a valorização do corpo e da beleza da sua sincronia quando movido. A apaixonante aura da dança das ideias, do corpo como história e espectáculo, em detrimento da estruturação de entretenimento ou regra. A suavidade do clássico com margem da loucura do futurista, do dadaísta ou do surrealista. Os corpos de mulheres e os corpos de homem como corpos de mulheres e corpos de homem. Pina é amor, no estado mais poderoso, através do corpo no limite.

E Wim Wenders homenageia, na perfeição, a dança-teatro do Tanztheater Wuppertal e a sua musa/diva, Bausch, no filme em 3D.

De mim

Sobram as lágrimas que ficaram presas entre

as marcas do pescoço

as das costas

e as das coxas.

Sobram as dores de cabeça. De pernas. De memória.

Sobra o desespero de perder os olhos na ininterrupta tristeza que ocupa o lado inteiro do corpo.

Não sobram sorrisos. Mas sobra tempo para tricotar o fado que não admite mais que lamentos e suspiros.

Não sobra de mim o que transbordava em mim.

Dele

Não tocá-lo quando está perto é como perder os sentidos por segundos, em que ar e fôlego rareiam ao mesmo tempo, em que um formigueiro dormente desfaz a pele. Quando me não beija, é como se faltasse sangue às veias e os meus lábios parecem desaparecer de tão inúteis e de tão frouxos. Se não lhe sentir o cheiro, mais vale que me arranquem a memória, para não lembrá-lo desesperadamente. Embrulham-se as lágrimas na garganta apertada, como se mais não houvesse que o toque daquelas mãos e o clamor daquela língua; a angústia de não o ter, por inteiro, a toda a hora, como se em mim vivesse, apenas, e fora de mim não valesse nada, não sentisse nada, existisse em nada. Mas quando me penetra os olhos entre esgares e me devora o peito como se travasse em mim todas as batalhas, triunfando energicamente dentro do meu colo, é como se existisse eu apenas para que ele me toque, como se sem ele o meu corpo se desmembrasse e se extinguisse.

Esta depressão que (me) anima

Com o Natal a saltar-me para cima e as aulas mesmo mesmo a chegar ao stand by, só me apetece enrolar nas 3 mantas que tenho no sofá e ver séries até vomitar. Só queria poder pedir a toda a gente para ninguém me chatear durante uns tempos e ficar durante tempo indeterminado a fixar o ecrã até as lentes colarem aos olhos e ter obrigatoriamente que fazer alguma coisa por mim.

Ou isso, ou ir de férias para outro país durante tempo suficiente para achar que já sei o que fazer à minha vida.

Outono

Acordei com chuva nos olhos e pensei que o tecto desabara em cima do colchão azul. Então reparei que eram mais quentes as gotas e que brotavam de mim para fora, assim, de dentro para fora, e que a chuva vinha ao contrário molhar o que estava do lado de lá da janela.

Não percebi porque tinha o talento de chorar ao acordar e quis que a chuva lá fora parasse para poder fingir que sabia controlar as dores dos olhos. Levantei-me e pensei que não era esta a minha sina e que os ajustes que tinha a fazer com o futuro iam ser para breve. Pensei no longo discurso que lhe ia fazer, para lhe explicar direitinho que o que tinha pedido não eram lágrimas nos olhos em dias de chuva, mas sim manhãs de sol para o resto da vida.

Cheguei ali assim e gritei que não queria que sorrissem mais. E eles obedeceram, porque ali assim ninguém gosta de me ver aborrecida. Se me tivessem dito que eu estava errada, que precisava era de sorrir com eles, podia bem ter acabado com a humanidade naquele instante lá.

Mas deixei-me estar carrancuda, à espera que o mundo mudasse alguma coisa em mim, me lavasse por dentro e me deixasse pendurada ao sol, a cheirar a sabão rosa, num prado verde como nos anúncios. E as molas seriam coloridas como as minhas entranhas lavadas. Mas ninguém pega em mim, então eu faço uma careta a toda a gente para que percebam que sou má e não quero brincar a nada hoje.

Vou chegar acolá e gritar a toda a gente para parar de viver durante uns minutos para poderem arranjar-me uma vida nova.