Durante o longo dia de ontem – dia de Eleições para as Autarquias Locais – desenvolvi uma teoria que me parece, para além de concisa, muito verdadeira. Isto do dever cívico é uma coisa bonita, mas cansa muito passar um dia a ver uma fila interminável de gente aproximar-se da secção de voto onde somos escrutinadores, de lápis por afiar em punho, prontos a procurar entre as imensas páginas o número do totoloto. E, melhor, adivinhar o nome das pessoas, que é algo que me fascina. Porque dizer “2045, José dos Santos Ferreira” (imaginemos!) num tom de meio pergunta meio afirmação, quase como dizendo “diga lá que não adivinhei o seu belo nome?” é fascinante para mim! Mas bom, voltando à minha teoria e deixando as outras exeperiências do dia para depois vos contar. O voto conjugal!
O voto conjugal é um fenómeno que aparece à margem do voto secreto e democrático, porque, tal como o nome indica, é conjugal. Ou seja, rege-se pelas regras do santo matrimónio e por todas as outras sub-regras que daí adevêm. Então: em resumo, o voto conjugal é quando um casal – de qualquer tipo – vai ao mesmo tempo às urnas e preenche os boletins de voto ao mesmo tempo. Tudo bom até aqui. Onde surge o fenómeno? O voto é discutido no acto, onde vale tudo: passar de um lado para o outro para indicar ao cônjuge onde votar; segredar entre a separação ou mesmo discutir a questão enquanto se espera na fila!
A teoria que desenvolvi baseia-se numa relação simples e numa evolução de personalidades. Todos conhecemos em algum momento da nossa vida aqueles colegas que por mais que estudassem, por mais que soubessem, ou então por mais que não soubessem, não conseguiam fazer um único teste ou exame sem confirmar todas as suas respostas com os seus pares. Ora estas pessoas, claramente inseguras, mas pelas mais diversas razões (ou outras nem sequer inseguras, mas que ganharam esta terrível mania) crescem e desenvolvem-se na sociedade desta mesma forma: sendo incapazes de dar um passo sem confirmar com os seus pares se está tudo bem, se podem avançar.
E como sabemos, muitas das relações que construímos são amorosas (mais ou menos) e nelas se descortina muita da nossa matéria. E é então aqui que este tipo de pessoas escolhem os seus companheiros de vida segundo esta velha mania: ou escolhem alguém a quem possam sempre perguntar antes de fazer (aliás, confirmar, perdão) ou escolhem alguém que tenha que confirmar com elas por sua vez. Estabelecem-se então aqui poderosas relações de poder! E, infelizmente, na maior parte dos casos o elemento masculino é o detentor de toda a razão (chamemos-lhe o líder de opinião) e o elemento feminino o que necessita de constante confirmação.
E é então que ele acontece: o voto conjugal. Mais ou menos saudável, porque vai desde o caso em que o casal discute na fila em quem vai votar, até ao que concorda em votar no mesmo já na secção de voto passando pelo menos saudável, que é o caso em que um dos elementos do casal não está cá para discussões e simplesmente vota pelo outro.
No meio de tudo isto, são diversas as vezes que se chama a atenção a casais por estarem a conversar na secção de voto, incluindo o tão saudoso “shhhhhhh” que costumávamos ouvir nos tempos da primária!
A todos os casais que praticam o voto conjugal deixo uma mensagem: por favor, deixem de ser idiotas! As relações são únicas e bonitas e a intimidade deve prezar-se…Mas não contra a lei, senhores. E quanto aos que necessitam constantemente de confirmações…Das duas uma. Ou se afastam da minha vida bem rapidinho para eu não ter que vos esganar ou então experimentem, uma vez por outra, pensar pelas vossas lindas cabecinhas. Espantar-se-iam com o resultado de uma decisão própria!